Ed Motta Jornalista

O momento exige diálogo, não confronto territorial

A retomada da discussão sobre a disputa territorial entre Mato Grosso e Pará é legítima. É natural que autoridades do nosso estado, Assembleia Legislativa, prefeitos e lideranças políticas defendam aquilo que entendem ser direito de Mato Grosso. Afinal, essa discussão não começou agora. Há décadas o tema da divisa entre os dois estados gera debates, ações judiciais e questionamentos históricos.

Hoje, a área em discussão gira em torno de aproximadamente 22 mil quilômetros quadrados e envolve regiões estratégicas do Norte do país. O caso voltou ao centro das atenções no Supremo Tribunal Federal (STF), reacendendo uma pauta que sempre mobilizou os municípios da nossa região.

E existe um argumento forte defendido pelas lideranças mato-grossenses: boa parte da população dessas áreas acaba utilizando os serviços de cidades do Norte de Mato Grosso. Muitos moradores procuram atendimento médico, comércio, escolas, estrutura pública e serviços em municípios como Guarantã do Norte, Peixoto de Azevedo, Terra Nova do Norte e outras cidades da região. Existe uma relação econômica e social consolidada ao longo dos anos.

Tudo isso precisa ser reconhecido.

Mas também é necessário fazer uma reflexão responsável sobre o momento em que esse debate volta à tona.

O Brasil vive hoje uma das discussões logísticas mais importantes das últimas décadas. A duplicação da BR-163 avança como um projeto fundamental para o escoamento da produção nacional, enquanto a Ferrogrão surge como uma obra estratégica para transformar a economia de Mato Grosso e do próprio Brasil.

A Ferrogrão, projetada para ligar Sinop até Miritituba, no Pará, terá cerca de 933 quilômetros de extensão e pode mudar completamente a logística do agronegócio brasileiro, reduzindo custos, ampliando a competitividade e fortalecendo o chamado Arco Norte.

Só que existe um detalhe importante: Mato Grosso precisa do Pará para que esse projeto aconteça.

A ferrovia depende diretamente dessa integração territorial, ambiental e logística entre os dois estados. O mesmo vale para a BR-163, principal corredor de escoamento da produção mato-grossense rumo aos portos do Norte. Hoje, a rodovia já opera sob forte pressão de tráfego e recebe investimentos bilionários justamente porque a Ferrogrão ainda não saiu do papel.

Além disso, existem inúmeras discussões ambientais, fundiárias e jurídicas envolvendo o traçado da ferrovia, especialmente dentro do território paraense. O STF, inclusive, recentemente validou a lei que permite o avanço do projeto, mas os debates continuam intensos entre setores ambientais, econômicos e políticos.

Por isso, talvez este não seja o momento mais oportuno para ampliar tensões políticas entre Mato Grosso e Pará.

Não se trata de abandonar a defesa territorial do nosso estado. Muito pelo contrário. Mato Grosso tem o direito de discutir seus interesses e defender aquilo que considera justo. Porém, é preciso equilíbrio, inteligência política e visão estratégica de futuro.

Estamos entrando em um período eleitoral importante no Brasil, com disputas para Presidência da República, governos estaduais, Assembleia Legislativa e Congresso Nacional. Ao mesmo tempo, o país debate obras bilionárias que dependem diretamente de articulação entre estados, governo federal, órgãos ambientais e setor produtivo.

Nesse cenário, o caminho mais inteligente talvez seja fortalecer pontes institucionais, e não ampliar conflitos políticos regionais.

O Norte de Mato Grosso cresceu graças à força do trabalho, da produção e da capacidade de diálogo. E será justamente através da união de interesses estratégicos entre Mato Grosso e Pará que projetos como a Ferrogrão e a consolidação da BR-163 poderão finalmente sair do papel de forma definitiva.

O debate territorial é legítimo. Mas o futuro econômico da região exige prudência, maturidade e cooperação.

Por Ed Motta – Jornalista e diretor da TV Mutum

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