Durante décadas, atravessar o Rio Juruena não foi apenas uma questão de chegar à outra margem. Era preciso esperar. Esperar a balsa, chegar a tempo, enfrentar a fila, calcular o horário da viagem e, muitas vezes, aceitar que o destino teria de ficar para o dia seguinte.
Essa realidade, por enquanto ainda faz parte da rotina de moradores de Cotriguaçu, Nova Bandeirantes e Japuranã. Localidades que, apesar da proximidade com Alta Floresta, um dos principais polos do Norte de Mato Grosso, convivem há décadas com as dificuldades de acesso provocadas pelo Rio Juruena e pelas condições da infraestrutura rodoviária.
Para quem precisa buscar atendimento de saúde, transportar mercadorias, escoar a produção, estudar, trabalhar ou simplesmente viajar, a distância não é medida apenas em quilômetros. É também medida em tempo de espera, custo e incertezas.
Mas, desde abril de 2023, uma nova história começou a ser construída sobre o rio. Nesta data, o Governo de Mato Grosso, por meio da Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística (Sinfra-MT), autorizou o início da construção da ponte de concreto sobre o Rio Juruena, na MT-208, além da implantação e pavimentação dos acessos.
A obra, que atualmente está com 74% de execução, substituirá a travessia feita por balsa e poderá mudar a relação de toda uma região, entre os municípios de Cotriguaçu e Nova Bandeirantes.
A ponte, porém, ainda não está pronta. E é justamente por isso que, para quem vive nessa região, o passado e o futuro continuam acontecendo ao mesmo tempo.
De um lado, a estrutura que cresce sobre o rio. Do outro, a balsa que ainda transporta moradores, trabalhadores, produtores e mercadorias entre as duas margens.
A reportagem do Nortão Online mergulhou fundo na história do Juruena. Antes dos pilares, das máquinas e do concreto, havia a espera.

Quando atravessar significava esperar
Damião Carlos de Lima, o Kiko, chegou a Cotriguaçu em fevereiro de 1998. Produtor rural e comerciante, ele também foi prefeito do município e, durante sua trajetória na vida pública, acompanhou de perto as necessidades da população e as dificuldades enfrentadas por quem dependia daquela ligação.
Na época em que chegou a Cotriguaçu, a realidade era ainda mais difícil.
“As estradas praticamente não existiam. Chegamos a levar até dois dias para vir de Alta Floresta até Cotriguaçu. E, se não chegássemos ao Rio Juruena até as 18h, tínhamos que dormir no carro. Era angustiante”, relatou, ao Nortão Online.
A experiência pessoal acabou se misturando à experiência de gestor. Ao longo dos anos, Kiko viu de perto como o isolamento interferia na vida dos moradores e no desenvolvimento do município.
Hoje, quase três décadas depois, ele olha para a ponte e vislumbra a realização de um sonho antigo da população.
“É um sonho de todo o povo dessa região. Quando essa ponte ficar pronta, vai melhorar muito para todos nós”, afirma.
A expectativa não está apenas na redução do tempo de viagem. Para quem vive da produção rural ou do comércio, uma ligação permanente significa também outra relação com mercados, fornecedores e serviços.
Kiko conta que, mesmo tendo um comércio de autopeças, muitas vezes deixa de comprar produtos em Alta Floresta porque a logística pela balsa não é viável. Ele também relata dificuldades enfrentadas por caminhões que transportam gado e por moradores que precisam organizar suas viagens de acordo com os horários da travessia.
Em uma dessas situações, chegou apenas cinco minutos atrasado e perdeu a última balsa entre Nova Bandeirantes e Cotriguaçu. Precisou retornar cerca de 30 quilômetros, dormir e fazer a travessia somente na manhã seguinte.
Com a ponte, ele não fala apenas em melhora. “Não acho, tenho certeza que vai ficar muito melhor”, afirma.
O rio ainda impõe seu tempo
A construção da ponte avançou, mas a realidade que motivou a obra ainda não terminou.
A balsa continua sendo a ligação entre as duas margens do Juruena. E a proximidade geográfica entre as localidades não significa, necessariamente, facilidade de acesso.
Alta Floresta funciona como um importante polo regional para moradores dessa parte do Norte de Mato Grosso, especialmente na área da saúde, além de concentrar comércio, serviços, educação e outras atividades.
Porém, para quem está do outro lado do Juruena, chegar até esses serviços ainda depende das condições da estrada e do funcionamento da travessia.
Na prática, o rio interfere na rotina antes mesmo de qualquer viagem começar. É preciso observar os horários da balsa, considerar a fila, prever atrasos e, em determinados casos, aceitar que uma viagem que poderia ser simples, se transforme em horas de espera.
É uma realidade que ainda existe, mas que deve mudar com a conclusão da obra.
Uma travessia de quase cinco quilômetros
Adilson Aparecido Lopes conhece o Rio Juruena como poucos. Durante 20 anos, trabalhou em uma empresa de navegação que operava a balsa no local. Há cerca de uma década deixou a atividade e passou a viver outra relação com o rio: hoje é produtor rural, empresário e usuário da própria travessia.
Morador de Japuranã, distrito de Nova Bandeirantes, Adilson vive a cerca de 22 quilômetros do local onde a futura ponte está sendo construída. Até a balsa, são aproximadamente 25 quilômetros.
O percurso da balsa chega a cerca de 4,7 quilômetros porque não é possível atravessar o rio em linha reta. Por causa das ilhas e dos diferentes canais, a embarcação faz um trajeto que envolve deslocamentos para cima e para baixo do rio.
“Em determinadas condições, uma viagem leva cerca de uma hora. No sentido contrário, aproximadamente 45 minutos”, conta.
A operação atende cerca de 250 veículos por dia, segundo a estimativa de Adilson, dentro de horários determinados. A travessia começa por volta das 6h e termina às 19h. À noite, não há tráfego.
Para quem trabalha com produção, transporte ou comércio, o relógio da balsa acaba fazendo parte da rotina.
Adilson lembra que a navegação teve papel importante na história de ocupação e integração de várias regiões de Mato Grosso. Durante os anos em que trabalhou no setor, participou da montagem de balsas e acompanhou uma época em que esse tipo de transporte era fundamental para a abertura de caminhos.
Por isso, ele não vê a balsa como um problema a ser apagado da história. Ela foi necessária. Cumpriu seu papel.
Agora, porém, uma nova etapa começa a surgir. “Essa ponte, para mim, é como um funcionário”, resume Adilson, ao explicar o que a estrutura poderá representar para seu trabalho e para os produtores que atende.
Ele trabalha com melhoramento genético e mantém atividades em Japuranã, atendendo dezenas de produtores de diferentes propriedades dos dois lados do rio. Hoje, precisa utilizar a balsa para parte desses deslocamentos.
Com a ponte, espera ganhar tempo, reduzir as dificuldades de logística e ampliar as possibilidades de atendimento.

Quando o horário da balsa interfere no leite e no gado
A dificuldade não está apenas no tempo de viagem. Ela também pode aparecer no preço de um produto, na entrega de uma carga ou na própria rotina de quem trabalha no campo.
Adilson cita como exemplo o transporte de leite. Segundo ele, produtores da região de Cotriguaçu já enfrentaram dificuldades para enviar a produção para unidades de processamento de outras localidades por causa dos horários da balsa.
Quando um caminhão chega depois do horário previsto para a travessia, a carga precisa esperar.
Para o leite, que depende de uma logística organizada e de horários de coleta, esse tipo de atraso pode comprometer toda a operação.
O mesmo ocorre com o transporte de gado. Adilson conta que caminhões carregados podem chegar à margem do rio e perder o horário da balsa. O veículo precisa permanecer parado até a próxima oportunidade de travessia.
Para o produtor, o problema não é apenas o tempo perdido. Animais confinados em caminhões sofrem com a espera e podem perder peso, interferindo no resultado da viagem.
Com uma ligação permanente, a expectativa é que o transporte possa ser planejado de outra maneira, sem depender do horário de uma embarcação.
A ponte, nesse sentido, não será apenas uma passagem sobre o rio. Será também uma mudança na logística de quem produz.
Uma cidade tão perto e, ao mesmo tempo, tão distante
Gilmar Cleber Passarelli Zeferino tem 35 anos, nasceu em Nova Bandeirantes e mora em Japuranã.
Filho de comerciantes e produtores rurais, cresceu acompanhando as transformações da região. Ele viu a chegada do asfalto melhorar o transporte, facilitar a chegada de produtos e reduzir custos de frete.
Para quem vive do comércio e da produção, cada melhoria na estrada representa uma mudança concreta no dia a dia.
Mas ainda existe um obstáculo. Cotriguaçu está perto. Muito perto. Mesmo assim, a falta de uma ligação permanente sobre o Juruena mantém os dois lados separados.
“É uma cidade tão pertinho de nós aqui, que fica desligada por causa da ponte”, resume Gilmar.
A frase traduz uma sensação que aparece de diferentes formas nos relatos de quem vive na região: o problema não é necessariamente a distância entre as cidades, mas a dificuldade de transformar proximidade geográfica em conexão real.
A ponte promete justamente essa mudança.
Uma obra que conecta mais do que duas margens
A construção da ponte faz parte de um conjunto maior de obras de infraestrutura executadas pelo Governo de Mato Grosso na região.
Segundo a Sinfra-MT, além da ponte sobre o Juruena, estão sendo executados os acessos e a pavimentação de 59 quilômetros da MT-208, além de três pontes menores, com estruturas de 25, 30 e 50 metros.
O projeto atualizado prevê 1.410 metros de extensão para a ponte sobre o Rio Juruena, que deverá superar em mais de duas vezes a atual maior ponte de Mato Grosso, com 692 metros.
O investimento informado atualmente pelo Governo do Estado é de R$ 293,9 milhões. A Sinfra prevê a conclusão da obra até o final de 2026.
O Governo do Estado considera a nova ligação estratégica para a logística do Noroeste de Mato Grosso e afirma que o conjunto de obras poderá melhorar a conexão da região com a BR-163 e reduzir em mais de 400 quilômetros a rota entre Juruena e os portos da região Norte.
Mais do que números, porém, a obra começa a responder a necessidades que moradores relatam há décadas.
José Carlos Ferreira, secretário de Transportes e Infraestrutura de Nova Bandeirantes, afirma que os efeitos da ponte deverão alcançar diferentes áreas da vida regional.
Para ele, a obra representa integração e desenvolvimento e poderá facilitar o deslocamento de moradores, o transporte escolar, o acesso à saúde e a circulação de profissionais.
A expectativa de mudança também passa pela saúde
Alta Floresta é um dos principais centros de referência utilizados pela população da região. Com uma ligação permanente, ambulâncias, pacientes e profissionais poderão atravessar o Juruena sem depender dos horários da balsa.
“Na saúde, significa facilitar e agilizar o acesso de ambulâncias, pacientes e profissionais aos centros de referência”, afirma José Carlos.
Na educação, a mudança também poderá aparecer no transporte escolar e na participação dos moradores em cursos, capacitações e outras atividades.
Na produção rural, a expectativa está relacionada à circulação de insumos, máquinas, leite, gado e outros produtos.
É a infraestrutura deixando de ser apenas concreto e asfalto para interferir diretamente na vida de quem precisa se deslocar.

O futuro começa do outro lado do rio
A ponte ainda está em construção. Enquanto máquinas trabalham sobre o Juruena com uma equipe de mais de 300 pessoas, a balsa continua cumprindo a função que exerceu durante décadas.
Ela ainda é necessária. Ainda há pessoas esperando. Ainda existem horários para cumprir, filas para enfrentar e viagens que precisam ser planejadas de acordo com a travessia.
Mas agora existe também uma estrutura que cresce sobre o rio. Para quem passou anos esperando, cada pilar representa mais do que uma etapa de engenharia.
Representa a possibilidade de chegar mais rápido ao médico, levar uma carga sem depender do horário da balsa, transportar o gado com menos espera, buscar produtos em outra cidade, estudar, trabalhar ou simplesmente viajar sem precisar perguntar primeiro: “Que horas passa a próxima balsa?”
O Rio Juruena continuará ali, no mesmo lugar. O que pode mudar, com a conclusão da ponte, é a maneira de atravessá-lo.
E talvez seja justamente essa a maior transformação: depois de décadas em que o rio determinou o tempo da viagem, será a estrada que começará a ditar o caminho.
“Que horas passa a próxima balsa?”

